Mulheres em, por e para a saúde

Laura Martinez Tebar | MADRID / EFE / ANA MARCOS / LAURA MARTINEZ TÉBARJueves 08.03.2018

70% dos empregos na área da saúde são desempenhados por mulheres. No entanto, os profissionais de saúde tenham de lidar diariamente com desafios como as dificuldades de conciliação de trabalho e família, ou de acesso a cargos de direção. No âmbito do Dia da Mulher, o I Congresso de Mulheres em, por, para a Saúde, analisa a situação atual em torno da igualdade entre homens e mulheres no exercício das profissões sanitárias

Capa do cartaz do I Congresso de Mulheres em, por, para a saúde

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Os desafios das mulheres no desempenho de profissionais de saúde e suas repercussões concentraram o debate, no passado sábado, em Madrid, do I Congresso de Mulheres em, por, para a Saúde, conduzido conjuntamente pelas faculdades de Dentistas e Estomatólogos; Farmacêuticos; Fisioterapeutas da Comunidade de Madrid (CPFM).

Esta iniciativa teve como objetivo o debate sobre os desafios legislativos em material de igualdade, bem como aprofundar os desafios diários para os profissionais de saúde, como a dificuldade de conciliação de trabalho e família ou o acesso a cargos de direção, entre outros.

O Congresso, apresentado pela jornalista e escritora Marta Robles, foi inaugurado pelo conselheiro de Saúde da Comunidade de Madrid, Enrique Ruiz Escudeiro.

Diferentes intervenções e trabalhos analisaram a saúde em relação a mulheres a partir de ângulos diversos e complementares para oferecer um raio-x da situaicón atual.

Mulheres e mudança de paradigma

A primeira relator, Belém Nogueira, psicóloga e especialista em dinâmica de grupos de mulheres, realizou-se um percurso histórico sobre a posição da mulher na ciência e as dificuldades que teve que superar para chegar à situação atual. “Conhecer a história é fundamental para compreender o momento atual”, diz.

Não obstante, a psicóloga aponta que ainda não se chegou a uma igualdade efetiva: “As mulheres são maioria nas faculdades, mas não estamos nos postos de responsabilidade e poder”.

Nesta linha, a professora de Filosofia Moral e Política, da Universidade Rei Juan Carlos, Ana Miguel, elaborou-se um percurso pela história do feminismo, destacou que, no século XIX, a mulher foi relegada ao âmbito privado e impossibilitou a sua formação universitária, e acrescentou que os grandes filósofos, cientistas e médicos do momento legitimaron.

Ermesenda Sánchez, enfermeira e presidente do Forum F. Madrid, falou sobre os aborrecimentos cotidianos na vida da mulher. “80% da sintomatologia que acusam as mulheres não encontrar uma causa orgânica, de acordo com o Observatório Mulher Saúde e a última Pesquisa Nacional de Saúde; além disso, 72% das mulheres se sente exausta no final do dia”, destacou.

“Os níveis de hormônios do estresse descem para os homens, quando chegam a casa, ao contrário do que nas mulheres”. Isto se deve a que elas recai, principalmente, a carga mental das tarefas diárias.

Entre as situações de vulnerabilidade relacionadas com o género que podem causar a doença em mulheres destacam-se o trabalho de dona de casa, as funções múltiplas, a dependência econômica, as situações de abuso vividas no passado, as mudanças do ciclo de vida (como a menopausa) ou a dupla jornada (trabalho remunerado e o trabalho de cuidado), entre outras, apontou Ermesenda Sánchez.

De fato, com relação ao tema dos cuidados, ressaltou que é comum que a mulher se descurar de proporcionar a si mesma. Concretamente, a importância do cuidado e do auto-cuidado falou Ana Isabel Álvarez, psicóloga da Associação Espanhola Contra o Câncer (AECC) e especialista em psicooncología e cuidados paliativos.

“O auto-cuidado é fundamental para o bem-estar e a realização da felicidade”, algo que, em sua opinião, algumas mulheres não têm em conta. Além disso, destacou que, como a mulher é a grande provedora de cuidados, o não poder seguir proporcionándolos em algum momento de sua vida lhe gera muito sofrimento. “Já não me posso ocupar, já não posso fazer… São frases muito repetidas. O Dejémonos cuidar!”.

Círculo vicioso da falta de co-responsabilidade nas tarefas de cuidados

Esta distribuição desigual das tarefas é um dos principais impedimentos para a realização da igualdade. Mariano Neto, membro da Rede de Homens pela Igualdade, destacou a importância da dimensão material da co-responsabilidade, isto é, as condições legais que têm de permitir a partilha desigual de tarefas. “Se a parte material não funciona, a afetiva prejudicado”, diz.

Por isso, desde a Plataforma por Permissões Iguais e Inalienáveis de Nascimento e Adoção (PPIINA) propõem licenças maternidade e paternidade iguais, intransferíveis e remuneradas a 100%, que permitam que ambos os membros do casal possa cuidar do bebê ou filho/a aprovado/a durante o mesmo tempo, e que escolham fazê-lo de forma simultânea ou consecutiva.

Os principais obstáculos para a co-responsabilidade, a nível material, são a ausência de serviços públicos gratuitos e de qualidade para o cuidado de crianças de 1-3 anos de idade e para o cuidado de pessoas dependentes, os horários de trabalho, a duração das jornadas de trabalho. Por isso, propõem a redução da jornada de trabalho para 35 horas semanais e a criação de redes de serviços públicos de qualidade, destaca Neto.

Neste sentido, Maria Nogueira, chefe de estudos de Investigação no Instituto de Estudos Fiscais, salientou: “Só quando se verificarem as mesmas condições para todos podemos culpar as pessoas por não se responsabilizar, mas agora não é possível de forma material”.

No entanto, tudo isso não permite alcançar a igualdade se não ocorrer uma mudança na mentalidade e na estrutura social, como explicou Ana de Miguel.

Finalização química e vulnerabilidade

Por sua parte, Mª Dolores Moreno, diretora do Instituto Nacional de Toxicologia e Ciências Forenses (INTC), centrou a sua intervenção na agressão e abuso sexual de mulheres, através da gestão de substâncias químicas.

“A finalização química é um crime relativamente moderna, que se entende por administração, sem consentimento de substâncias (geralmente, o álcool, as drogas habituais e os fármacos de utilização comum), que anulam a capacidade da vítima com a intenção de cometer um crime”, diz Moreno.

O primeiro caso documentado no Brasil data do ano de 2004 (Hospital Clinic, Barcelona). O caso típico de abuso por finalização química é o de um agressor que traduz uma substância na bebida da vítima, sendo que esta perca o conhecimento ou capacidade de se defender para abusar dela.

Entre as dificuldades para investigar o crime, a diretora do INTC disse que, por um lado, está o atraso por parte da vítima em denunciar os fatos, somado às dificuldades no reconhecimento do crime e de análise.

“Os profissionais de saúde muitas vezes não são capazes de identificar um possível caso de abuso por finalização química e, além disso, as substâncias envolvidas desaparecem rapidamente do organismo”, comentou.

Além disso, é vital que passar o menor tempo possível entre o evento e a tomada de amostras por parte do laboratório (uma demora que, segundo estima, alonga-se até 18 horas após o evento).

Adaptação do projeto ao exercício profissional da mulher

A odontologia, entre outras profissões de saúde, tem uma presença eminentemente feminina, no entanto, no ambiente de trabalho”, que não segue o princípio do projeto e é dada pelo fato de que é a mulher que se adapta”, manifiestó Laura Ceballos, professora titular de Patologia e Terapêutica Dentária na URJC.

Em sua palestra, Ceballos denunciou que, apesar da alta presença feminina, “o equipamento não foi concebido para eles”. Por exemplo, a bata, que até há alguns anos, estava destinada apenas para os homens sem pensar na morfologia feminina, ou os pijamas de uso único “que continuam a ser unisex, é dizer, para homens”, apostila.

Saúde e pobreza

A médica missionária Cristina Antolín, após três décadas de cuidados de saúde, nos Camarões e na República Democrática do Congo (África), centrou a sua intervenção nas dificuldades de exercer a sua profissão em uma sociedade em que o trabalho se viu questionado por ser mulher, bem como as dificuldades na assistência à saúde, devido à escassez de pessoal e de infra-estruturas adequadas.

“África é uma sociedade machista, onde a mulher não tem dignidade, por si mesma, mas que é valorizada pelos filhos que tem, por isso que não trabalha, não tem direitos, é comprada pelo homem… a Minha presença há 32 anos nos corredores, na sala de cirurgia de um hospital da selva incentiva as pessoas a dizer de mim que eu era um homem”.

Além disso, a mortalidade materno-infantil é muito elevada. “Em 2015, apenas em Camarões, ocorreram cerca de 600 mortes de mães por cada 100.000 crianças nascidas e 150 mortes de crianças entre 0 e 5 anos”, disse a religiosa.

Por outro lado, “o câncer está sendo um grande desastre e está aumentando de forma vertiginosa com 12.000 novos casos registrados a cada ano em Camarões”, lamentou.

O assoalho pélvico, esse grande desconhecido

“Muitas mulheres pensam que ter incontinencias é normal. Pode ser comum, mas as disfunções do assoalho pélvico não são normais, e isto é uma mensagem que devemos deixar bem claro”, disse Virgínia Urcelay, especialista em assoalho pélvico e na gravidez, parto e pós-parto.

Se bem é certo que as patologias do pavimento pélvico não são apenas um problema das mulheres, “no caso das mulheres, estas são mais afetadas por problemas como as alterações hormonais, gravidez, trabalho de parto, episiotomia, fórceps, menopausa…”, afirmou Urcelay.

Uma série de alterações ao longo da vida da mulher que podem condicionar significativamente sua qualidade de vida”. Por isso, é imprescindível, na opinião da especialista, “promover a prevenção e o conhecimento do assoalho pélvico desde idades precoces, evitar a prisão de ventre, a obesidade, o tabagismo, esportes de impacto e os abdominais clássicos que nos podem vir a prejudicar”.

Alcançar novas metas

O fechamento do Congresso ficou a cargo de Teresa Perales, vencedora de 26 medalhas paralímpicas em natação, escritor e coach. Em sua “oficina de empoderamento”, contou o triunfo de sua luta interior e lançou uma mensagem de motivação e superação para atingir as nossas metas.

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