Meu parceiro tem câncer…o Que eu faço?

EFE/Shawn Thew

“Não basta pensar no paciente. Você também tem que pensar em você e em como você vai focar, porque se você hundes você, você não pode ajudar o seu parceiro“, garante Marco, companheiro sentimental de Carlos, sobrevivente de câncer. O diagnóstico não é só para o paciente, ao final afeta os membros da família.

Em EFEsalud falamos com Fátima Castanheira, psicooncóloga de Quálitas Psicologia e coautora do livro “o amor e o câncer”,sobre o papel que joga a par de uma pessoa doente. Um primeiro manual para os casais de pacientes oncológicos que recolhe situações, recursos e recomendações para que o processo seja mais suportável entre os dois.

Até que ponto é importante o casal?

A especialista garante que “o bem-estar e a qualidade de vida do casal, sem dúvida, repercute na qualidade de vida do paciente”. Afirma que, se o casal está bem em todos os sentidos, o cuidado, o paciente será muito melhor.

Podem ser “detectar anomalias muito antes”, acrescenta, e ambos se recuperam muito melhor do que as circunstâncias pelas quais estão passando.

O apoio do outro é importante “até o ponto de que são os cuidadores principais, e deles dependem, em grande medida, tanto a recuperação física e mental”.

Falta de ajuda psicológica

“Vivemos em um sistema onde os médicos estão focados em aumentar os anos de vida, em curar as pessoas no âmbito físico, mas muitas vezes se esquecem da parte emocional, que muitas vezes é a que perdura ao longo do tempo”, declara.

Fátima Castanheira acrescenta que “a atenção psicológica, infelizmente, hoje em dia não está muito difundida” e que um dos fatores mais importantes é “orientar os pacientes desde o início”, a fim de que possam “viver melhor”.

O principal problema dos casais é que não recebem “o aconselhamento necessário” e “não se sentem livres”. A especialista afirma: “Eles não se sentem com o direito de poder pedir ajuda, nem de expressar suas emoções e nem mesmo de enrugado, porque não sentem que são os protagonistas”.

Percebem que todos os cuidados têm que estar centrados no doente e não na deles, que passam a um segundo plano, quando na realidade eles são figuras indispensáveis.

O diagnóstico de um câncer é uma notícia que “provoca muitas mudanças em vários aspectos de suas vidas”, e precisam de “guias para saber lidar com essas mudanças”. É importante que saibam quando não estão fazendo bem ou quando as emoções vão das mãos e que conheçam os profissionais que podem ajudar.

Medos

Os casais vivem de forma semelhante as emoções que vivem os pacientes, a principal diferença é que a vivem a partir de um ponto de vista diferente.

Emoções como a tristeza, o medo, a ansiedade por mudanças e até mesmo de culpa com pensamentos como “como estarei fazendo o bem?” são as mais frequentes. Nem sempre se lhes tem em conta, como a figura fundamental para o cuidado de seus pares.

Preferem mostrar-se fortes e capazes, mostrar ao mundo que “não aconteceu nada e que eles podem com tudo”. Apresentam uma imagem de fortaleza, quando, em muitas ocasiões, sentem dúvidas, não sabem como lidar com a situação.

Outra das razões por que se mostra assim é por mensagens externas que recebem. O ambiente diz coisas como: “você tem que ser forte”, “agora é sua vez de puxar a carroça”, “você tem poder”, etc.

Os psicooncólogos tentam “desconstruir essa situação” e pretendem “tirar todo esse peso, porque é uma sensação nova, tanto para eles como para seus parceiros”.

O abandono, por que isso acontece?

“Há casais que a raiz do diagnóstico quebrar, mas isso não significa que a doença seja a causa da ruptura”, garante a especialista.

São casais que previamente tinham “dificuldades de comunicação e de convivência“, por isso que se vêem saturadas perante “uma situação de crise vital, como é o câncer”.

“A raiz do diagnóstico tomam a decisão, mas não é o câncer em si, isso não poderia ter acontecido em outra situação de crise, como por exemplo uma mudança de apartamento”, confirma a especialista.

São casos pontuais, porque na maioria das vezes, “tanto o casal como os pacientes querem ajudar, ir em frente e fazê-lo juntos”.

Recomendações durante a doença

  1. Incentivar o trabalho em equipe: ser conscientes de que é um trabalho de dois para aqueles que vivem em casal.
  2. Normalizar as emoções: estas não são patológicas. Você tem que tentar lidar com elas e saber identificar aspectos que necessitam da atenção de um profissional como a sensação de excessiva dificuldade, ou de muita tristeza.
  3. Abrir as vias de comunicação: a maioria dos casais que vivem em silêncio, por medo de incomodar um ao outro. Por não gerar uma dor adicionado, vivem suas dificuldades em silêncio. Há que normalizar esse processo e dar-pé que falem e para que se sintam livres para manifestar suas dúvidas.
  4. Assumir as mudanças de papéis: de que podem existir no casal, se adaptar a todo tipo de circunstâncias (o trabalho, o cuidado da família, dos filhos, etc.)
  5. A sexualidade é um domínio que não se costuma trabalhar e até mesmo os pacientes deixam de lado.

“O que recomendamos para a hora de ler o livro é que as pessoas leiam aqueles capítulos que em suas circunstâncias sejam adequados”, diz.

Quando se passa o câncer, o que fazer?

“O câncer é uma circunstância que passa pela vida e que deixa marca , inevitavelmente, e é importante não ignorar essa pegada”, garante a especialista.

Há que tentar, pouco a pouco, ir recuperando “normal” em todos os aspectos da vida, não fazê-lo de forma abrupta. “O câncer pode vir a favorecer o crescimento do casal e o conhecer-se melhor diante da dificuldade”, diz a especialista.

A psicooncóloga afirma que “nem todos os pacientes superam o câncer, nas mesmas circunstâncias, muitos deles ficam com sequelas por isso que, na maioria do possível, há que favorecer a adaptação diante das mudanças“.

O que fazer se o casal não supera a doença

A superação de um duelo é um momento muito complicado, Fátima Castanheira afirma que “há que processar todo o trabalho que têm feito até aqui, a tarefa do cuidado e, pouco a pouco, dizer adeus ao seu parceiro, com o fim de adaptar-se à nova vida que começa”.

Nesta fase há que tentar normalizar o processo, “fazer-lhes ver que não é abrupto que da noite para o dia não vão se sentir bem e que requer um dizer adeus de uma forma progressiva, para pouco a pouco ir encontrando-se com eles mesmos”, acrescenta.

Garante que há que “cercar-se dos entes queridos” que sirvam de suporte para não se isolar e tentar gradualmente, sem pressões, voltar ao seu cotidiano.

Como agir com as crianças

Castanhos: “Os psicólogos recomendamos que se normalizamos as emoções e situações com os adultos, por que não fazer isso com as crianças”.

As crianças já possuem a capacidade de compreensão a partir dos 3 anos, “eles se dão conta de que há alguém malito”. A especialista aponta que a chave é “adaptar a informação de acordo com a idade da criança”.

É importante mantê-los informados “para que não se sintam isolados de casos de família” e se sintam parte das mudanças. Não há que deixar que “fantaseen com que talvez eles sejam culpados de tudo o que está acontecendo”, porque a sua eles não sabem o que está acontecendo, só vêem uma aptidão rara é seus pais.

Uma vez que a criança já tem a informação de doença do seu familiar, pouco a pouco, há que ir informando as mudanças se a gravidade aumenta. “Se uma criança lhe diz de forma abrupta que seu pai ou mãe já não está, vai ser muito mais complicado entender as circunstâncias”, assegura a psicooncóloga.

Juntamente com a informação há que, dando-lhes “segurança para que entendam que não vão estar sozinhos”. Devem entender que, apesar de esse familiar não esteja, “lhes vai cuidar e que suas rotinas vão seguir”. Isso às crianças dá-lhes confiança e facilita a compreensão de todo o processo.

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