Menos estresse e mais auto-estima

EFE / Ballesteros.

“O naturismo é uma filosofia, uma mentalidade, um é nudista sempre, você pratica ou não, porque é uma forma de pensar da pessoa, sobre o corpo humano. Acho que todo mundo é nudista desde que nasce e, em seguida, a sociedade nos impõe a roupa e nos faz pensar que há algo de errado no corpo, mas alguns nos damos conta de que esta imposição é muito negativa e conseguimos superar as barreiras que nos foi incutido pela nossa anatomia”.

Quem assim fala é Ismael Rodrigo, licenciado em Química, membro do conselho de administração da Fundação Internacional de Direitos Humanos e desde há 15 anos, presidente da Federação Portuguesa de Naturismo (FEN).

Nascido em 1963, abraçou pessoalmente esta “filosofia” em 98, mas não “idealiza” o movimento dos nudistas, ou seus seguidores, mas considera que acrescenta algo de positivo para as pessoas, lhes há mais comunicativas, permite-lhes uma maior aceitação do corpo:

“Isso está claro, nós somos pessoas que temos passado um flagelo social que é muito mais negativa do que a gente pensa. A gente não se dá conta de que é negativo que é o uso compulsivo da roupa quando não é preciso, porque em muitos momentos, sim o é, e também é útil”·.

A vestimenta focaliza a atenção na sexualidade, e o naturismo provoca o contrário:”normalizar a nudez reduz o mercado do sexo”, defende.

Além disso, Considera que as mais afetadas pela manipulação que é feita ambiente a este tema são as mulheres, porque as obriga a ter “o nu perfeito, só no momento certo, apenas para a satisfação do homem. …”

Para o presidente da FEN, o nudismo tem muito que ver com a saúde, a saúde é algo abrangente e, sobretudo, algo psicológico “e os seres humanos não estamos saudáveis quando não podemos ver o nosso corpo de uma maneira normal… É um absurdo esconder o corpo humano na educação e dizer aos meninos desde pequenos que vestir e fazer a conexão do nu com algo sujo. É nefasto como são tratados estes temas…”

Como exemplo a seguir refere o da Noruega, onde, nos últimos anos, desde as instituições governamentais têm se proposto a recuperação do naturismo no país, no entanto, onde sempre foram “muito normais contra a nudez, quando tomam sol, se banham, estão na sauna…”

205 argumentos a favor do naturismo

Publicação de referência para os naturistas que se apresentam, o documento “205 argumentos e observações em favor do naturismo”, diz que o naturismo promove a saúde mental e o conceito do corpo como um todo, em vez de separar partes do mesmo, como indesejáveis e vergonhosas, e que trata-se de uma prática extremamente libertadora: “Liberada a si mesmo para ficar nua na presença de outros, incluindo membros do sexo oposto, os nudistas também tiram de cima de todas as questões sociais que acompanham o tabu da nudez.

Escrito por K Bacher, da Sociedade Naturista Americana, e traduzido para o português por Paulo Fernandes, apresenta argumentos de ordem histórico, social, pessoal, psicológico e até mesmo políticos sobre o que é melhor estar nu com roupa, que ainda hoje, em 2017, são muito válidos.

Em seu percurso, por ordem histórica, este documento relata que os banhos cerimoniais do Antigo Testamento, incluindo o batismo, se realizavam sem roupa e aponta que “provavelmente Cristo também foi batizado nu, como se observa em muitas obras de arte antigas.

Durante o período que vai do século II ao IV, os cidadãos romanos, incluindo os primeiros cristãos, tomavam banho nus em banhos públicos, e era algo comum e aceito em outras partes da sociedade romana durante o referido período de tempo.

EFE/JESÚS DIGES

Também assegura que os escritos dos primeiros Cristãos, como Ireneu e Tertuliano deixam claro que eles não tinham nenhum tipo de reservas éticas sobre a nudez dela, e que era comum e aceita pela sociedade premedieval (aproximadamente século VI), especialmente em lugares como a Grã-Bretanha, que era terra ‘bárbara’ alguns séculos atrás.

Os nus, de acordo com esta publicação, eram bastante comuns nas sociedades medievais e renascentistas, especialmente em banheiros públicos e em ambientes familiares. Mesmo na era Vitoriana, antes da invenção dos trajes de banho, era comum tomar banho nu no oceano; e nos music halls, às vezes, apresentavam modelos nus como ‘esculturas’ – vivos.

Bem-estar psicológico: menos stress, mais auto-estima

Em entrevista a EFEsalud, o psicólogo Roberto Fernandes, que reconhece que pratica o nudismo, em alguma ocasião, mas não como uma filosofia de vida, defende também o bem-estar psicológico que reserva praticar o nudismo.

Considera-se que é central a aceitação do corpo como parte absolutamente natural e única, e porque “os modelos sociais que nos impõem sobre os corpos são muito restritivos e impossíveis, não só no conceito de beleza, mas também na sexualidade”. Estes modelos, considera-se, distorcem a relação que você tem com o seu corpo.

E como muito poucas anatomias se assemelham aos modelos impostos, sempre geram sentimentos de inferioridade, de não se encaixar, uma sensação de que você não é perfeito, e por não ser perfeito, tende a escondê-lo com as vestes”.

Toda esta cultura se favorece menos a mulher. O corpo da mulher está mais encorsetado e comprimido que o do homem, e “há estatísticas assustadoras que indicam que entre 17 e 24 anos, 90% das mulheres não estão satisfeitas com o seu corpo, são dados arrepiantes”

Teria que mudar muitas coisas, começando pela educação sexual, defende o psicólogo depois de se destacar que, infelizmente, há muitos exemplos que se seguem gerando polêmica, como dar de amamentar em público, quando, neste caso, a função é muito diferente da erótica.

A liberação da nudez, assegura convencido, pode ajudar muito a nível psicológico quer melhorar a auto-estima.

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