Medicina personalizada em um cenário incerto

Medicina personalizada, de precisão, para grupos de pacientes que compartilham uma alteração no seu perfil genético e que é a doença sem danos colaterais. Esse já é o presente e, acima de tudo, o futuro de uma saúde preditiva ligada à inovação e condicionada pela gestão dos recursos de uma saúde pública que vive um momento incerto

Cromossomos. Foto:Instituto Roche

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As novas terapias alvos e sua repercussão no domínio da ciência e da saúde tem sido o eixo central de um seminário de imprensa realizada em Sevilha pelo Instituto Roche, que chega ao seu décimo aniversário fiel ao seu objetivo de impulsionar a medicina individualizada aproximando a sociedade os avanços relacionados com a genética, que abriu novas perspectivas de diagnóstico e tratamento.

Este é o caso específico do câncer de mama HER2 positivo, um perfil molecular agressivo, com uma taxa de mortalidade que há duas décadas era de 80% e que, agora, esse percentual se tornou taxa de sobrevivência. Não deixa de ser um câncer violento, o que mudou é como se ataca o tumor: frente a uma quimioterapia convencional com inevitáveis efeitos colaterais, descobriu-se o receptor de crescimento e os princípios ativos (trastuzumab, pertuzumab…) que o bloqueiam.

Ana Lluch, chefe de Hematologia e Oncologia do Hospital Clínico de Valência, viveu esta revolução científica desde a primeira linha. O tratamento com trastuzumab, o primeiro biológico foi -explica- “um fenômeno social, um verdadeiro marco que mudou a história natural do HER2 positivo, sem risco de morte ou de toxicidade para o paciente”. Agora, a união de trastuzumab, pertuzumab e quimioterapia acaba de demonstrar que aumenta a sobrevivência em 40% a sobrevida nos casos com metástases.

Conhecer a biologia do tumor

O diagnóstico por estádio (tamanho, tempo, mudanças no tumor) já não é mais o eixo. Só complementando a informação básica: a biologia das células, o que vai condicionar o seu prognóstico e o tratamento.

Já não se trata de todos os pacientes por igual, de acordo com as características de cada tumor da mama será necessário uma terapia hormonal, terapia diana ou a quimioterapia convencional já não é necessária para quase 30% das pacientes.

“Um câncer é muito heterogêneo, com células diferentes formando o tumor e, por isso, a quimioterapia age como a bomba atômica, mata todas as células. Hoje tentamos ser mais seletivos e ir contra as alterações da célula. Temos que ser mais inteligentes do que a própria doença”, aponta a especialista.

E um passo de gigante foi a sequenciação do genoma humano, conhecer o perfil genético do paciente e as alterações que possa sofrer.

O caso de Felisa

A Felisa Gordero, professora de 58 anos, fez um teste genético que confirmou a realidade, mutações genéticas que predispõem ao câncer, ao igual que lhes aconteceu com os seus pais e irmã. O seu é um tumor de mama HER2 negativo com metástase no fígado.

Também sabe os dissabores de ser participante de um ensaio clínico, sem resultados, enquanto que a esperança não a perde. “Mas o meu medo é que as dificuldades econômicas e a falta de uma política de saúde pública com um planejamento a longo prazo e que abranja de forma igual a todas as comunidades dificulte muito a implantação generalizada de uma medicina personalizada. São muitas as ameaças que como paciente sinto e não é por mim mesma, mas por futuros doentes, há muitas desigualdades dentro dos hospitais da mesma cidade”.

Uma reivindicação partilhada pelo seu médico, a oncóloga Ana Lluch: “Com os tratamentos biológicos que já temos, não podemos consentir em saúde pública, que possa se pagar e quem não pode não o consiga”.

O responsável pela Área de Government Affairs Roche Farma, Frederico Praça, considera que a medicina personalizada tem um impacto econômico mais caro por paciente e incentivou a buscar fórmulas para que “o modelo de Estado que tanto nos custou a ganhar se mantenha, seja sustentável e compatível com os desafios científicos ou sociais”.

As doenças cardíacas familiares

A cardiologia também tornou-se um dos pontos de vista da medicina personalizada. Quanto há de risco e quanto de herança genética nas doenças cardiovasculares? Os testes genéticos tornam-se, assim, na determinantes para prevenir e tratar doenças cardíacas familiares.

E uma dessas cardiopatias com base genética é a morte súbita, como explicou o cardiologista Afonso Castro Beiras, diretor da área do Coração do Complexo Hospitalar Universitário de lisboa.

Para o doutor Castro Beiras, “a genética é um campo de rápido avanço no campo cardiovascular, o crescimento é exponencial, e deve ser integrada no processo clínico do doente”.

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