Além do grito

Às vezes reagimos como um touro bravo, quando somos incapazes de alcançar o nosso objetivo, ou estamos sujeitos a muita tensão. Dar um marte ou increpar o outro permite canalizar uma emoção fora de controle, mas o que há por trás do grito? Viaja com a gente no epicentro da ira

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Basta pressionar uma tecla para que uma pessoa explore. Qual? O botão de frustração. Metas fora de nosso alcance, sonhos desfeitos, inconformismo, stress… “A ira é uma emoção primária para a sobrevivência, de adaptação às situações que vivemos”, explica o psicólogo clínico João Cruz.

Não importa tanto o que está acontecendo, mas como reagimos perante o que está acontecendo. “Uma pessoa que canaliza mal a sua ira fecha a porta com violência, chega em casa e paga seu mal-estar com seus filhos ou reprime sua cabreo até que alguém lhe cortar o carro”, diz o psicoterapeuta Luis Muiño.

Existem vários fatores externos que favorecem a ira. “As emoções são contagiosas. Quando há problemas de trabalho, perdas, doenças e violência social, surgem momentos de grande irritação e impaciência. Há que aprender a modular a resposta”, diz Cruz.

Efeito de espelho

A ira também é fruto do aprendizado. “Se alguém de sua família costuma responder com raiva, você está imitando a conduta que você já viu. Não te proporcionaram recursos para pensar, parar e relaxar”, diz o psicólogo. A educação é essencial para aprender a gerir emoções.

Se há falta de habilidades sociais, o problema se complica. “Quando uma pessoa tem dificuldades para colocar em palavras o que sente, grita, porque não sabe expressar seu mal-estar de outra maneira”. A impotência é a sua freio e o grito, a sua arma. Outras pessoas se refugiam no silêncio.

“Vivemos a cultura da autocontención, onde a ira se manifesta na forma de cinismo verbal ou conversas agressivas”, acrescenta Muiño. A violência física já não é tão comum como em outras épocas, mas ainda está presente em algumas situações. Uma atitude muito agressiva pode causar abuso físico.

Os ataques de ira são destrutivos e são dadas em pessoas irascíveis, incapazes de controlar a sua raiva. “Eles tendem a ser autoritárias e ambiciosas, às vezes, têm baixa auto-estima e pouca tolerância à frustração”, diz Cruz.

Fúria sob controle

Temos uma necessidade física e emocional de canalizar a nossa ira. Há quem recorre ao futebol para liberar a tensão. “Um pênalti no último minuto pode gerar raiva, mas algumas pessoas já trazem a raiva de casa porque não conseguem trabalho e manifestam nas arquibancadas”, explica Muiño.

Não obstante, o futebol é um gerador de ira per se. “Minha equipe faz parte da minha identidade, me sinto identificado com ele”. O mesmo acontece com a política ou os artistas. Por exemplo, o que poderia acontecer se alguém se mete com uma estrela pop em público? O mais provável é que seus fãs reajam. “São temas viscerais. Não existe a possibilidade de convencer o outro”, observa Muiño.

O psicoterapeuta aconselha a praticar esportes como o boxe para orientar a adrenalina fruto da ira. Como outras técnicas de desabafo? “Ouvir música de má baba ou manter uma conversa cínica com um amigo cana de açúcar que não tente templarte, porque, se não sais mais puto”.

Luzes e sombras

Levar a cólera para o caminho errado pode trazer problemas:

Não obstante, “tendemos a demonizar a ira como se estar puto fosse algo mau em si”, lamenta Muiño. Esta emoção bem canalizada tem as suas vantagens:

  • Romper com situações que não nos convém. “Graças à ira, deixaste uma relação tóxica ou você deu um soco na mesa de seu chefe e você se foi. Acabou-Se”, observa Muiño.
  • Corrigir condutas erradas. “Pode promover a justiça social”, afirma Cruz. Um bom exemplo são os protestos.
  • Trabalhar a paciência. Controlar os impulsos agressivos é o melhor treino.

Leve o seu tempo

E como podemos evitar que a centelha gere o incêndio? Identificar é o primeiro passo. “Detectamos como aumenta a temperatura e o ritmo cardíaco, como nós começamos a colocar vermelhos”. Para, pensa e respira. E acima de tudo não anticipes acontecimentos.

“Muitas vezes nos enfadamos antes de tempo. Em vez de evitar o conflito, nos voltamos para ele de cabeça, como um touro bravo”. Cruz sugere avaliar a importância do fato. Será que Vale a pena fazer uma montanha de um grão de areia? “Devemos reagir de uma forma proporcional à situação e não agir sob os efeitos da ira“.

Por último, há que perdoar e perdoar não por aquilo que se diz, mas como se diz. “É um ato de humildade: não sou perfeito”, diz Cruz. “É impossível extirparse o hipotálamo, assim que aceita a tua ira, e tenha um compromisso pessoal com ela. Vai ser sua amiga para sempre”, conclui Muiño.

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